domingo, 8 de junho de 2008

NOT DEAD, NOT YET

Apesar de não se tratar de uma grande multidão, o Buldozer sempre teve um público fiel. Para vocês, aviso que o blog não morreu, está apenas sobrevivendo em coma, com o auxílio de máquinas. Vou republicar um post antigo aqui, que saiu originalmente no Abobra em 2005. Isso não só para enrolar os leitores, mas também porque tem um personagem que quero desenvolver em outras histórias, segue como introdução:

A pequena quitinete não tinha divisões internas. Apenas um espaço comprido e o banheiro. Em uma ponta, o banheiro, a pia da cozinha e a entrada do apartamento. Do outro, uma janela. As paredes eram pintadas de creme, limpas e no chão, uma cerâmica barata, rugosa, amarronzada.

Havia um colchão de casal e duas caixas de papelão grandes próximas à janela. Mais próximos à entrada do apartamento, um microcomputador, com impressora multifuncional, joystick, mouse óptico e teclado, todos sem fio. O monitor tinha 19 polegadas. Todos esses equipamentos se apoiavam em suas próprias caixas.

Havia um aparelho de telefone vermelho próximo ao microcomputador, e estava sendo utilizado.

- Desculpe, senhor, mas não poderemos mais lhe entregar pizzas.
- Mas eu gosto da pizza de vocês. Qual o problema?
- Simplesmente não poderemos mais entregar. Há vários bons estabelecimentos de delivery food aqui no bairro, estou certo que isso não será um problema para o senhor.
- Lúcia, isso não faz sentido. O que há, será que você pode me dizer?
- Bem, senhor...eu não deveria dizer, mas...nenhum de nossos entregadores aceita mais entregar pizza para o senhor.
- Por que não? Sempre pago em dinheiro, e sempre dou gorjeta. Nunca fui mal-educado com nenhum deles. Por que isso?
- Ah, senhor, não é possível. O senhor sabe muito bem porque não!
- Calma, Lúcia. Nós falamos quase todo dia a mais de três anos, não é preciso se alterar!
- Nunca lhe dei intimidade, senhor.
- E nem eu estou pedindo. Quero só que me diga o porquê disso!
- Quer dizer que o senhor não sabe?!
- Não faço idéia.
- Estão todos constrangidos, senhor!
- Por que estariam? Nunca fui grosso ou mal-educado, tudo que digo a eles, sempre, é - "o dinheiro está aí no chão. Pode deixar a pizza aí mesmo. Fique com o troco. Boa noite." - e eles sempre respondem "boa noite, senhor" e vão embora. Por que isso?
- Não vou resistir mais, senhor, tenho que perguntar: por que o senhor recebe nossos entregadores pelado, todas as noites?
- O QUÊ?! Então é isso?! Eles querem tirar minha liberdade de ficar como quiser dentro de minha própria casa?!
- Senhor, deve admitir que é constrangedor para um entregador se deparar com um homem nu ao fazer uma entrega. Muitos deles são casados, não gostam dessas coisas!
- Coisas? Que coisas?
- Ora, o senhor sabe...
- Não, não sei. O que há?
- Senhor, não me entenda mal, não temos nada contra sua orientação sexual, isso é algo pessoal, que só diz respeito ao senhor. Hoje em dia o homossexualismo...
- Homossexualismo? Eu não sou homossexual, oras!
- O senhor não precisa negar, somos muito profissionais, não nos importa se o cliente é gay ou não. O único problema é a nudez...

- Lúcia, eu não sou gay. Nunca importunei um entregador de vocês nesse sentido, não sei de onde eles tiraram isso.
- Francamente, senhor, um homem que recebe outros homens nu em sua cama só pode ser o quê, afinal?
- Ouça com atenção, Lúcia. Eu não sou gay, e nunca assediei um entregador seu. Apenas não gosto de usar roupas, o contato do tecido com minha pele incomoda. Agora, pode mandar minha pizza, porque quando o motoboy chegar esse problema estará resolvido.
- Se o senhor diz...está bem, quer de quê?
- Metade portuguesa, metade aliche. O refri, eu quero uma Coca Light.
- São vinte e cinco reais, precisa de troco?
- Não, Lúcia, obrigado.
- De nada, senhor, boa noite.
- Boa noite, e bom serviço.
- Obrigado.

A porta estava aberta, como sempre. O entregador entrou apreensivo. O homem estava sentado na cama, como sempre, mas dessa vez com um edredon no colo. No chão, havia três notas de dez reais.

- O dinheiro está aí no chão. Pode deixar a pizza aí mesmo. Fique com o troco. Boa noite.
- Boa noite, senhor.

Na noite seguinte, o quitinete ganhou um biombo de madeira, que foi colocado entre a pia da cozinha e o microcomputador.