sábado, 27 de outubro de 2007



Há cinco anos, em 27 de outubro de 2002, criei essa bodega, de forma muito despretensiosa, para publicar um textinho chamado "Porque resolvi virar playboy", que estava parado em meu HD esperando publicação. Eu e o Reinaldo tínhamos uma página na web, chamada "Gordos Cult HP", que pretendia ser algo como um Omelete (que ainda não existia), só que bem mais tosco e amador. Éramos - e ainda somos - preguiçosos demais para aprender webdesign, e atualizar a página era uma verdadeira novela, que envolvia a dependência de amigos e esbarrava na falta de recursos e mesmo da intenção de profissionalizar a bagaça.

Assim o Buldozer surgiu como blog por uma opção tecnológica, por ser fácil de operar, e nunca teve a intenção de ser algum tipo de "diarinho virtual", o que era a regra dos blogs da época, embora o primeiro texto falasse de umas experiências minhas. O Reinaldo aderiu rapidamente à idéia, com um entusiasmo que até hoje me surpreende, e uma série de amigos colaborou, em diferentes épocas, para o blog ganhar uma cara, uma personalidade própria, um tipo de humor bem peculiar. Em sua missão de "fazer a terraplanagem dos politicamente corretos", publicamos alguns textos bem legais e despertamos algumas reações divertidamente raivosas.

Mesmo assim, devo confessar que meu entusiasmo para continuar publicando aqui se diluiu bastante nos últimos tempos e até andei me perguntando o que raios um camarada de trinta anos na cara, que como todo mundo já tem sua boa cota de problemas e coisas para fazer, poderia querer com um blog que não é exatamente uma fonte de grandes emoções, só mais uma página pouco acessada em um mar virtual onde pode-se bem achar humoristas melhores e páginas mais bem construídas.

A resposta me veio justamente hoje, quando nem pensava no assunto, embora já tivesse conversado com o Reinaldo sobre esse lance de cinco anos. Tenho um hábito muito simples desde moleque, que é, no final da tarde, sentar em algum banco de praça embaixo de uma árvore, tirar a corrente da minha cadela para ela dar uma volta na grama, e ler um pouco de um livro, até escurecer. Se quando moleque eu podia fazer isso direto, hoje é um prazer de fim de semana, pelo simples fato de que no entardecer estou trabalhando embaixo de uma lâmpada fluorescente, entre o computador e a escrivaninha. Ainda assim, qualquer um há de concordar que é um prazer simples, barato, e que um cara capaz de ser feliz com um programa tão singelo não tem motivos para se estressar muito na vida.

Pois hoje, em meu bucólico entardecer literário, fui interrompido pelo frenético som do Calypso, em último volume. Em um estacionamento próximo, um gol branco, equipado com caixas de som provavelmente mais caras que o carro, começou a infernizar a tarde da vizinhança. Pensei, de forma comedida, que cada um se diverte do seu jeito e que provavelmente aquela era a forma das pessoas sorrirem, dançarem umas com as outras, se esfregarem tosca e sensualmente e, quem sabe nesse clima, uma noite inteira de sexo surgiria , ao menos, entre um casal mais animado. Uma causa nobre, enfim, ainda que me atrapalhasse. Qual o quê.

Em volta do gol branco, percebi quando olhei com mais atenção, havia homens de meia idade sentados no meio-fio, calados. Mulheres feias em pé, paradas, olhando para o vazio. Apenas uma mexia o quadril de leve, timidamente, cantando sozinha e acompanhando a canção. Ninguém bebia nada. As crianças brincavam com uma bola de futebol e faziam uma algazarra que, se não podia exatamente se chamar de jogo, certamente não era nada parecido com dança. Enfim, aquilo não era uma saudável manifestação festiva de vizinhança no espaço público. Era só mais um entardecer paradão, e aquele barulho dos infernos era simplesmente a trilha sonora que aquelas pessoas escolheram não para si, mas para a vida de todos no raio de pelo menos um quilômetro. Quando exclamei em voz baixa, para mim mesmo, um discreto "puta merda", uma senhora que passava sorriu para mim e disse:

- É, acho que você não vai conseguir ler por aqui.

- Não vou mesmo. Mas o pessoal gosta é disso, né?

- É, fazer o quê.

- Fazer o quê...

Fazer o quê?!?! Digo o que eu tinha vontade de fazer naquela hora! Eu queria pegar um pé-de-cabra e destruir aquele carro e seu aparelho de som inteiro! Queria prender todos os homens dali dentro da carcaça e jogar um fósforo aceso dentro do tanque de gasolina! Mandar aquelas mulheres para divertir os internos de um presídio de segurança máxima! Esterilizar a molecada que jogava golzinho no ritmo da Joelma! Destruir cada disco e transformar em vírus de computador cada arquivo eletrônico de Calypso que existisse em um HD no mundo! Incluir a banda Calypso na Operação Óleo de Mamona! Cercar os estúdios da SBT e da Rede Globo com tropas federais, e trocar toda a programação por filmes de sacanagem com anões, japonesas e enguias! Implodir todos os templos da Igreja Universal com os fiéis e pastores dentro!

Naturalmente, jamais vou fazer qualquer coisa desse tipo, e nem acho que alguém deva. Mas é divertido, de um modo tosco, pensar que tais coisas podem ser propostas sem nenhuma seriedade ou compromisso, em "textos de virar o estômago", em um "blog sem nexo e com humor de péssimo gosto". É nessa hora que lembrei que um espaço como o Buldozer pode ser, eu não diria "necessário", mas com certeza desejável e divertido. E por causa dessa birra com a mediocridade espalhada pelo país, descendente direta do famoso "FEBEAPÁ" anunciado por Stanislaw Ponte Preta, certamente há público, ainda que restrito e nem um pouco pagante, não para a solução dos problemas, mas para a crítica mórbida e destrutiva, para o espírito buldozer na pior acepção que a palavra evoca, para as bizarrices mais estúpidas e o para os textos mais escrotos que possamos publicar por aqui.