domingo, 3 de dezembro de 2006

TMS - Tráfico Management System - Parte 3 (Final)

Finalmente chegamos à parte final. Para quem ainda não o fez, recomendo que leia antes a Parte 1 e Parte 2.

- Caralho, onde eu estou?

A última coisa que eu lembrava era de ter voltado do buteco e ter tomado uma pancada na cabeça. Acordei não sei que tempo depois, mas estava em um quartinho úmido e escuro, sem móveis e com um cheiro de urina e merda insuportável. Coloquei a mão na nuca e ainda sangrava um pouco.

Levantei e bati à porta, queria saber que porra tinha acontecido. A porta é aberta e entra um sujeito com cara psicótica cheio de tatuagens.

- Fala aí mano, firrrrmeza? Eu sou o Caçapa.
- Prazer.
- O lance é o seguinte, fiquei sabendo que você fez um sisteminha aí pro Cebola. É sério isso?
- Ehhh, sim, é verdade.
- Só mano. Porra, o cara começou a vender mais, o lucro aumentou. Porra, isso começou a fuder com meu negócio. Mas a gente tem uma forma de resolver isso.


Traficante Caçapa

Pelo que entendi o cara era de uma facção rival e estava puto porque a expansão dos negócios do Cebola estava atrapalhando as vendas dele. Quando ele disse que iria resolver isso, puxou um puta trabucão e olhou pra minha cara, sorrindo. Pensei na hora: "Agora sim, fudeu".

- Tu vai ter que fazer um sisteminha desses pra mim, se não vai sentir a força do meu amigo aqui bem socado no seu cu, filho da puta.

Já que eu iria morrer de qualquer jeito, resolvi pelo menos morrer como macho. Então retruquei:

- Porra Caçapa. Filho da puta o caralho, seu viado escroto, seu palhaço fedido. Vai se fuder, porra. Se eu for fazer essa buceta de sistema pra você vai ser do meu jeito. E se achar ruim, pode me matar logo e aproveita e vai tomar no cu você e essa sua ganguezinha de merda.

Dito isso, já comecei a me despedir dessa vida, pois era certo que o cara ia estressar e me dar um pipoco no meio da testa.

- Caralho muleque, tu tem atitude, gosto disso. Beleza então mano, e aí vamos fazer o sistema ou não? E vai ser pago. Quanto foi que o Cebola te pagou?

- Porra cara, ele me pagou pouco, uns 80 mil só (já menti o valor para lucrar mais na parada).

- E você ainda tem o sistema?

- Tenho sim, mas tá lá em casa no meu notebook.

- Beleza então, pegamos ele também. Vamos fazer assim, quero o sistema do jeito que tá só que com umas pequenas coisas a mais e te pago 100 mil, tá afim?

- Porra, 100 mil? Que miséria, mas beleza, tá valendo. Só tem um lance, quando o Cebola descobrir, ele vai matar eu e minha mulher, quero segurança para mim e ela bem longe de sampa. Dá uma grana pra ela e diz que eu encontro ela depois.

- Já é.

Peguei meu note, pedi uma pizza pros caras e já comecei a mudar o sistema para ficar com o design que o Caçapa queria. Isso foi fácil, demorou só algumas horas. Mostrei para ele e pros capangas dele e os caras adoraram. Então o Caçapa veio falar comigo.

- Seguinte mano, tem uns lances que eu queria a mais aí.

- Diga.

- Porra, seria do caralho ter o sistema ligado a umas web cams no morro junto com umas armas também. Daí de longe eu veria se quem tá subindo é sangue bom ou é filho da puta, daí eu apertaria um botão e já mandaria bala no cara. Tipo, pelo sistema mesmo eu poderia fazer com que as armas disparassem, tá ligado?

- Só, acho que rola sim.

- Da hora. Outra coisa: queria outras web cams também para mostrar como tá os bailes aqui da comunidade. Daí o sistema poderia dizer que mina tá querendo dar pra mim, se ela gosta de levar pica no cu, se curte uma putaria da pesada ou se é mais recatada, esses lances.

- Putz, isso vai ser foda, mas vou ver o que dá para fazer.

- Queria também que tivesse um esquema de avisar os caras dos butecos que eu vou tomar umas cervas a uma certa hora e os caras já antes deixam a minha cerva gelando e tal. Se der para o sistema dizer qual buteco tem a cerva mais gelada naquela hora, porra, aí seria massa.

- Tranquilo, só vou precisar de uns sensores, mas daí te passo a lista e você compra.

- Aí galera, alguém aí tem mais uma idéia?

- Porra Caçapa, podia rolar um jeito de testar o pó, ver a qualidade, essas coisas.

- Boa, inclui isso aí também.

- Tranquilo, esse aí vai ser fácil - pensei: "Caralho, como vou fazer isso?" - Algo mais?

- Humm, ah tem sim. - Falando isso o Caçapa se empolgou - Porra, uma coisa que me deixa puto é que sempre quando tá a galera junto tem um filho da puta fedorento que fica peidando direto. Puta que pariu, acho que o cara come feijoada com ovo de codorna e batata doce. Fede pra caralho o peido do viado.

- Mas e daí?

- Porra e daí que eu queria que o sistema desse um jeito de indentificar quem é o malandro, porque sabe como é, peido e filho de puta ninguém assume.

- Ok, eu vou fazendo conforme vocês forem pedindo. É só isso?

- Acho que sim. Então fica assim, manda bala aí que a gente vai mandar bala lá fora.

Bom, atender pedidos esquisitos de clientes idiotas é o dia-a-dia de qualquer programador, mas aquilo ali havia passado dos limites. No entanto eu teria que dar um jeito de deixar tudo conforme os traficantes queriam.

Já no outro dia cedo chegaram todos os equipamentos que eu pedi: sensores, web cams, fios, roteadores, servidores, wireless access points, armas e o caralho a quatro. Comecei então a pensar em como resolveria cada um dos pedidos.

O primeiro foi o mais fácil: instalar web cams no morro e armas com sensores disparadas à distância. Fiz uma tela onde o cara poderia ver ao mesmo tempo 9 web cams, sendo as imagens alternadas, pois no total eram cerca de 30. Ao lado de cada web cam seriam instaladas duas AK-47 sendo que ao gatilho seria preso um fio e este por sua vez estaria preso ao cartucho de uma impressora. Daí ao apertar o botão para atirar, o sistema tiraria uma foto da imagem caputarada pela web cam e mandaria para a impressora, acessada por uma rede sem fio. O cartucho da impressora iria se mover, acionaria o gatilho e daí seria bala no azarado que estivesse no local. O legal é que teria até uma foto do elemento para guardar para a posteridade.

O mais fácil foi instalar as câmeras nos bailes e indentificar que mulheres estavam a fim de dar para o Caçapa. O esquema seria o seguinte: o Caçapa teria uma tela com a imagem do baile, bastaria ele clicar o mouse sobre a mina que o sistema traria algumas informações: quer dar para o Caçapa, gosta de sexo anal, curte putaria e sexo selvagem. Esse item foi fácil resolver porque toda mulher que vai a baile funk curte putaria e, por conseqüência, liberar o olho de Thundera. Já dar ou não para o Caçapa, sem dúvida, o cara era o maior traficante do local, todas as minas dariam para ele, seja por medo ou por vontade mesmo.

Para descobrir que buteco tinha a cerveja mais gelada, eu instalei sensores nos congeladores de cada buteco que mediam a temperatura e mandavam isso para o sistema. Bem fácil. Tranquilo também foi saber quem é o fedorento da quadrilha. Como os caras acreditavam que o sistema iria mesmo detectar isso, programei a camera para registrar cada vez que alguém olhasse para ela (existem softwares que fazem isso: baseado na íris da pessoa sabe-se que alguém olhou para a câmera). O culpado seria quem mais olhou para a câmera, pois o cara estaria com tanto medo do sistema detectá-lo que olharia direto para a web cam tentando perceber se foi descoberto ou não.

Poucos dias depois, numa conversa descontraída em um buteco com o Caçapa e seu bando, o elemento me faz uma pergunta:

- Aí cara, como é mesmo que vocês chamam o computador?

- Computador, ue!

- Não porra, tem outro jeito, um nome engraçado. Tipo umas letrinhas.

- Ah tá, é PC.

- Isso. Então, pensei em mudar o nome da nossa organização, lembrando que somos a mais moderna do mundo. Daí pensei em chamarmos Caçapa e seus PCs .

- Não porra, isso parece nome de bandinha dos anos 80 - Disse um dos traficantes.

- Aí, que tal PC do Caçapa - Sugeriu outro traficante, um baixinho com cara de traveco.

- Porra, maneiro, rola até uma sigla: PCC. Gostei, vai ser isso mesmo.

Passaram-se alguns dias, o sistema estava em uso e agradando todo mundo. Haviam descoberto e despachado o traficante fedido (era o baixinho com cara de traveco), a inadimplência caiu drasticamente, o Caçapa comia de 2 a 3 minas diferentes por dia, rolando até uns bacanais de vez em quando, as vendas subiram, a cerveja estava mais gelada. Enfim, tudo na maior paz e tranquilidade. Eu fui até promovido a CIO (Chief Information Officer) do PCC e recebia um ótimo salário por isso.

Foi então que a merda aconteceu. A galera do Cebola (leia as partes 1 e 2, caso não lembre quem é o Cebola) descobriu sobre as inovações tecnológicas do PCC e sacou que os caras haviam me sequestrado. Resolveram então invadir a área do Caçapa e me resgatar. A confusão foi enorme, bala voado para todo lado e foi nessa que aproveitei para fugir de lá, sem que ninguém percebesse. No final até sobre que os dois, o Caçapa e o Cebola, morreram na treta.

A galera dos presídios ficou sabendo da invasão e rolou uma guerra entre as facções dentro das cadeias. Para não ser achado, me mudei de Sampa para o interior do estado e adotei um nome falso: Mustache Rider. Encontrei minha esposa em um local que combinamos que ela iria se desse algo errado e agora vivo minha vida tranquila e feliz, graças ao dinheiro que ganhei nesse tempo e aos investimentos que fiz.

Claro que essa grana um dia acabou, mas hoje me sustento graças à participação nos lucros da Buldozer Corp. e a alguns outros serviços e consultorias que presto a outras "organizações alternativas". Quando fugi do Caçapa, consegui trazer junto meu notebook, traduzi o sistema para o russo e árabe, criei versões do TMS para auxiliar na gestão dos negócios de alguns grupos internacionais que atuam no "mercado de risco".


Mutache Rider