terça-feira, 7 de novembro de 2006

TMS - Tráfico Management System - Parte 1



Sempre achei que essa história de escrever para o Buldozer e viver fazendo piada das coisas algum dia ia dar uma merda. O pior é que eu estava certo e a merda foi grande. Mas vamos começar com a história antes de existir o Buldozer.

Anos atrás em morava em Brasília mas decidi me mudar pois o mercado de trabalho lá estava uma porcaria na minha área. Para quem não sabe, eu sou programador e existem poucas empresas no setor no DF. Resolvi então ir para a terra das oportunidades: São Paulo.

No começo eu não tinha grana nenhuma, então fui morar meio que na periferia, em um bairro perto do Capão Redondo, um lugar bem barra pesada aqui em sampa. Meio que para sobreviver, acabei conhecendo uns figuras de lá. Não tinha jeito de não falar com os caras, via eles no ponto de ônibus, na padaria, no buteco, em todo lugar. E aqui é assim: se você não é amigo deles, é um inimigo, aí já viu ...

Eu sempre fui muito de fazer piada com as coisas. E uma que sempre fazia era que algum dia ia fazer um sistema para os traficantes controlarem o tráfico, as bocas de fumo, etc. Vivia zoando com isso e imaginando como seria o sistema. A merda foi que essa história se espalhou e um dia veio um cara falar comigo, aqui em casa.

- Fala mano, firmeza?
- Opa, tudo bem?
- Deixa eu me apresentar. Meu nome é Cebola.
- Cebola? Beleza, muito prazer.
- Pô, não vai querer saber porque me chamam de cebola?
- Ehh, claro, porque te chamam de cebola?
- Porque faço todo mundo chorar, hahahahahahahaha.

Eu pensei: "caralho, fudeu". Cebola continua a conversa:

- O lance é o seguinte, fiquei sabendo que tu faz uns lance aqui de computador. Da hora isso aí.
- Ah, valeu.
- O esquema é que eu tô precisando mesmo controlar os esquemas por aqui. Tipo quanto tem de pó, quanto paguei no pó de 10, 20, 50, quem tá me devendo, o nome dos neguinhos que a gente tem que dar um silêncio. Tá ligado?
- Só. Tô entendendo.
- Daí queria ver contigo quanto você tá cobrando pra fazer esses lances aí. Hoje é foda, controlo tudo no caderninho, trampo pra caralho.
- Beleza, vou pensar e eu te falo.
- Valeu mano, amanhã eu passo aí.

Obviamente pensei em não aceitar. Nunca iria fazer sistema para traficante, mas aí pensei que o cara podia pegar mal, me marcar e daí a casa iria cair pro meu lado. Então pensei em uma saída melhor para todos: vou cobrar um preço absurdo e o cara não vai querer fazer. Melhor assim, ninguém sai ferido. Chegou o outro dia e o cara apareceu de noite lá em casa:

- Fala mano, beleza?
- E aí Cebola, firmeza?
- Sóóó. Seguinte: pensou naquele nosso lance?
- Claro. Seguinte: o sistema todo dá pra fazer em uns 2 meses.
- E quanto fica tudo?
- Ah, tudo fica uns 50 mil.
- 50 mil! Porra! Beleza, amanhã já deixo uns 10% com você aqui adiantado.

"Caralho, fudeu!", foi o que pensei na hora. O cara topou e eu ia ter que fazer. Nem adiantava fugir, ele ia me achar onde quer que eu fosse. O lance era fazer o projeto mesmo e aproveitar a grana. E o pior, eu nem sabia se em dois meses daria mesmo para fazer o bagulho (sem trocadilhos) todo.

Continua...


Mustache Rider