domingo, 4 de setembro de 2005

ÓPIO DO POVO, FOI-SE O TEMPO...

Não sou grandes fã de futebol não, acho até legal esse lance de assistir uma partida ou outra de vez em quando na TV, é uma boa desculpa para tomar uma gelada com a galera e talz, mas não passa disso. Costumo assistir mais os jogos da seleção brasileira, aquele ufanismo babaca bate no peito e aí, sabe como é, difícil de segurar, a lavagem cerebral vem desde moleque e aí não tem jeito.

Contudo, não me passa pela cabeça dirigir-me a um estádio para acenar bandeira e gritar "olé!", costuma rolar violência e pedreirices, e eu tô fora. Quando quero assistir um jogo, é pela televisão mesmo, com a breja gelada saindo diretamente do meu refrigerador ou, quando muito, da bandeja do garçom. Por isso não fiquei triste quando fiquei sabendo que o jogo contra o Chile, aqui em Brasília, teria por valor mínimo de ingresso R$ 70,00. "Excelente desculpa para recusar convites de chatos", pensei. Mas também refleti que talvez fosse sacanagem um preço tão alto para uma diversão popular, uma das poucas alegrias do povão. Mesmo assim, todos os ingressos foram vendidos, confirmando o tradicional costume do brasiliense de pagar caro por qualquer merda.

Nesse dia tinha muito o que fazer aqui em casa, então assisti o jogo por aqui mesmo, com a tábua de passar roupa entre a cama e a TV. O jogo foi muito bom, como todo mundo viu, e até que rendeu bem: até o final dele já tinha passado roupas suficientes para a semana inteira. Mas algumas coisas me chamaram a atenção:

- não houve pancadaria, pedreirices ou baixarias na arquibancada: lógico, era a classe-mérdia-bunda-mole que estava lá;

- durante a narração, descobri que havia uma merda ali chamada "quadrado mágico", que seria um suposto esquema tático envolvendo quatro excelentes jogadores da seleção. Até aí normal, mas o que pintou depois me deixou mais de cara: pintou na tela da Globo uma enquete perguntando para o público se achava uma boa a escalação de um "pentágono mágico", e oferecia um endereço na web para quem quisesse responder. Aí pensei: "porra, o povão pedra lá vai saber o que caralhos é pentágono! Muito menos vai ter web disponível para responder a porra da enquete"!

- No fim do jogo, o camarada foi entrevistar o Robinho, famoso por ser um cara tranquilo e ter vindo de baixo. Entre um papo e outro, o jogador falou que dali para frente, estando na Europa, andaria sempre de terno pra pegar melhor.

Aí me manquei de que, agora, o público-alvo do futebol é a classe média. Até isso tiraram dos pobres, o direito de sentir-se parte do universo do futebol: o ópio do povo agora é apenas para as classes média e alta. Se pobre quiser assistir e curtir pode ser, mas não é mais algo parte da realidade dele, voltado para ele, é mais um espaço onde ele é pouco mais que um bicão.

Achei isso uma merda: é como passar a vender a Caninha 51 por R$15,00 a dose - tirar do cara uma das poucas diversões da vida dele, típicas, que ele sente como dele, e torná-la item de consumo de alto nível, de grife.