sábado, 10 de setembro de 2005

O MUNDO É DOS PEDRAS – “A Casa do Livro” vai fechar!

Domingo, um amigo meu vai comemorar seu aniversário, e me convidou para o churrasco em que haverá a festa. É um sujeito um pouco mais velho que eu, bastante culto. Logo me toquei que, devido à sofisticação dos gostos do camarada, o único presente viável ao meu bolso seria um bom livro. Devo admitir, contudo, que pouco tenho de culto, muito menos de cult. Não é de hoje que expresso minha ojeriza a todo tipo de pseudo-intelectual, desejando-lhes não apenas a pena de morte, mas um fim tão lento e doloroso quanto seja possível à imaginação de um torturador. Mesmo assim, entristeço-me um pouco, sempre, ao entrar em alguma livraria do tipo “Siciliano”: a regra são títulos fúteis, agradáveis às cabeças de minhoca que freqüentam os corredores dos shopping centers, e a busca por exceções é penosa naquelas estantes desorganizadas, arrumadas pelos analfabetos funcionais bem-intencionados que estão sempre prontos a nos atender, desde que estejamos dispostos a soletrar com cuidado qualquer sobrenome um pouco diferente, de algum autor um pouco menos conhecido.

Certamente, meu anfitrião me olharia com estranheza se lhe presenteasse com “Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus”, ou “Os Dez Segredos das Pessoas Felizes”. Ele agradeceria, silencioso, aos céus, pela possibilidade de troca do título, e quem sabe eu não esbarraria com ele na semana seguinte na mesma loja de livros, soletrando pacientemente o sobrenome de alguém à alegre atendente de avental azul-marinho. Para evitar tal constrangimento, resolvi dirigir-me a “A Casa do Livro”, no Conic, um shopping popular no centro de Brasília. Do meu ponto de vista, aquela loja sempre esteve lá. Não me recordo de um tempo que não estivesse. Ali sempre pude encontrar livros dignos de tal nome: baratos ou caros, ali é um centro de cultura sem igual na cidade: lembra-me a livraria da “História sem Fim”: a combinação de uma fantástica oferta de títulos e um proprietário mal-humorado, mas boa gente, faziam todo o charme de uma livraria onde você encontrava o que estivesse procurando, e se não encontrasse, encomendava e esperava chegar. Arquitetura, no meu caso; sociologia, história, arte, cultura, ciência política, tudo, para quem quisesse; e livros de entretenimento, boa literatura, para quem quisesse ler algo melhor do que Paulo Coelho. E o pessoal que trabalhava na loja sabia te orientar a achar um livro, de acordo com o que você quisesse ou precisasse.

Ali eu certamente acharia o presente sem esforço, pensei, e para lá fui. Como sempre, o dono estava no balcão batendo papo com intelectuais da geração dele, aquela profusão de cabeças brancas trocando lá suas idéias, tranqüilos como se não houvesse mundo lá fora. Se certamente há, provavelmente vive processos pouco afeitos àquelas discussões. Sem disposição para interromper a conversa, dirigi-me direto à estante e à mesa sempre reservadas à arquitetura, com títulos vários de vinte a duzentos reais. Mas a arrumação da loja estava diferente: livros empilhados, estantes meio vazias, mesas de destaques sem a tradicional e cuidadosa disposição temática de títulos. Tudo bagunçado, enfim. Perguntei ao dono onde estavam os títulos de arquitetura, ele deixou o balcão e a conversa e me indicou os lugares. Vi uns poucos livros em duas prateleiras e outros misturados com títulos não-afins, sem cuidado, em uma mesa. Não resisti à pergunta, cuja resposta já antevia:

- Desculpe perguntar, mas eu tô estranhando a loja. Tem alguma coisa acontecendo?

- Tá acontecendo que eu vou provavelmente fechar, alugar os imóveis que tenho e pagar os compromissos. Do jeito que está, não está dando para manter a livraria com a qualidade que a gente tem aqui.

Disse a ele que achava tudo uma pena. Que era a melhor livraria de Brasília, com um acervo sem igual. Ele deu de ombros - “fazer o quê?!” - e voltou para o balcão. E além do presente, acabei escolhendo mais dois livros para mim. Um livro francês sobre uma obra do Henri Gaudin – ricamente ilustrado, porque não sei ler patavina daquilo – e um usado, mexicano, sobre habitação. Para meu amigo, comprei um sobre o tempo dos modernistas no Ministério da Cultura, recente publicação do IPHAN, “Modernistas na Repartição”. Praticamente todas as publicações do IPHAN estavam disponíveis na loja, eu de vez em quando compro uma mais voltada para minha área. Mas agora vai ficar mais difícil.

Queria comprar a loja toda, não por pena do velho, mas porque amanhã pode ser tarde demais para achar os livros que quero. Mas segurei a onda, e paguei R$ 74,00 nos três livros, com um pouco de negociação. Salvo engano, com esse dinheiro não compro três livros de auto-ajuda da moda na Siciliano, mesmo usando meu “cartão-fidelidade”. E fiquei triste, porque se “A Casa do Livro” não tem o tal “cartão-fidelidade”, você negocia os descontos na conversa; se não tem atendentes uniformizados com roupas coloridas e padronizadas, tem pessoas que sabem te ajudar a achar um bom livro sem consultar um banco de dados; e se não tem loja nos shoppings da moda, acho bons livros quando eu os procuro – e que em nenhum outro lugar eu encontro: a Livraria da Editora UnB se preocupa mais com os próprios títulos e uns outros de editoras universitárias; a livraria do Chiquinho, na UnB, é do tamanho de uma banca de jornal e se vira nos centímetros para manter a variedade no acervo – e ambas são puramente acadêmicas. Não tem o ambiente de boa livraria, onde, do nada, você vê em exposição um bom livro de xilogravuras de algum artista nordestino da década de 70 por vinte reais. Você nunca ouviu falar do tal artista, mas folheando o livro você vê que o cara é bom. Vislumbro o tempo em que qualquer livro um pouco melhor só vai estar disponível para compra na Internet – e alguém me explique como posso folhear um livro pela Web!

Fico imaginando que, se não há mercado para bons livros na capital do país, o que dizer no resto dele! Uma massa de ignorantes iletrados sob o comando de uma massa de ignorantes letrados, já desconfiava e agora tenho certeza, essa é a melhor definição do Brasil. E claro, seria muito fácil eu começar aqui um discurso do tipo “Brasileiros Pocotó”: vociferar contra Gugu, Faustão, Sílvio Santos, Zezé di Camargo e Luciano, Conspiração, Hollywood, times de futebol, reforma educacional da ditadura militar... é tanto alvo que haja bala! Mas não: acho que as pessoas são ignorantes porque estão a fim de sê-lo: curtem a condição de burro, de mané, de pocotó. Ser fútil está na moda.O ignorante bem de vida, além de tudo, curte ainda mais sua burrice, fazendo porcaria no trânsito com sua picape gigante, ouvindo Rick e Renner no último volume e analisando o mundo através das lentes de um Ray-Ban original. E se acredita, firmemente, feliz. Eu também acredito que seja, porque o país é dele. E não é meu. Cada dia me sinto menos brasileiro, mais alheio a todo o processo que vejo no país: se multiplicam as academias de ginástica, as clínicas de estética, as lojas de griffe, as empresas de buffet e cerimonial – e nunca são caras o suficiente para não se poder aumentar o preço no mês seguinte. As pessoas podem pagar R$ 200,00 por mês em uma academia ou R$ 3.000,00 por um baile brega de formatura. Mas, aparentemente, R$25,00 é muito dinheiro para se pagar em um livro.

Caso se tratasse de uma crise econômica geral do bolso dos brasileiros, não veríamos os negócios que eu citei prosperando tanto, eu acho. Mas não se trata de crise monetária, e sim de valores. E certamente não é de agora, mas só hoje eu realizei o tamanho do tolete: em uma região com dois milhões de habitantes, uma livraria tradicional, com bons títulos e sem concorrente em seu nicho de mercado, não dá lucro. Porque o tal nicho não existe mais: não se pensa mais nesse país, só se sai fazendo – e não à toa, se faz tudo errado a partir de então. Porque cada ação terminada é uma linha a mais com o OK em uma célula, na minha planilha Excel nomeada “Tarefas – Controle”. Eu imprimo, entrego para meu chefe, ele anexa no relatório trimestral, o relatório é enviado ao superior, que constata que cumpri todas as minhas tarefas no prazo, as não cumpridas ainda estão no prazo, e tudo está bem.