sexta-feira, 13 de agosto de 2004

ABÓBORA COM CARNE SECA



Hoje estava numa boa, cagando e lendo um jornal no banheiro aqui de casa, quando uma reportagem me chamou a atenção: um grupo de artistas e intelectuais brasileiros, visando valorizar elementos da cultura nacional, constituiu em julho do ano passado, em uma cidadezinha em São Paulo, uma sociedade que pretende contrapor elementos da cultura nacional àqueles da cultura norte-americana. Colocada dessa forma, me pareceu boa a idéia. Só que eu tinha lido apenas o primeiro parágrafo da notícia.

Aí vi que o grupo se autodenomina a Sosaci, isto é a “Sociedade de Observadores de Saci” (clique aqui para ir à homepage dos caras). Puta que o pariu, “observadores de saci?”! Que merda é essa? Os caras querem trabalhar ou ficar inventando termos esquisitos para disfarçar? “Começou a pseudice”, pensei na hora...e não estava errado. Logo em seguida, vi que eles se denominavam uma “ONC”, ou seja, uma “Organização Não-Capitalista”.“Não-Capitalista?”, pensei. Será que eles querem me mandar para a Sibéria? Dar um tiro na minha cabeça e mandar a conta para minha mãe? Comecei a ficar preocupado, mas resolvi continuar a leitura. Tinha ali o “Manifesto de Fundação da Sosaci” (clique aqui). Esse manifesto, entre outras pérolas, colocava os X-Men no mesmo balaio dos Pokemon. Aí foi demais, meu espírito nerd ficou contrariado de vez. De quebra, eles evocam para si, como se com eles fosse estar se vivo, o bom exemplo de Monteiro Lobato, justo ele, que nunca gostou dessas merdas xenófobas. Ao mesmo tempo que o cara trazia elementos da cultura popular brasileira às crianças, ele apresentava a cultura clássica grega, as fábulas tradicionais, e elementos da cultura de todo o mundo.

Isso, no meu ponto de vista, é mais um dos movimentos do “politicamente correto”, que têm no Buldozer, senão um inimigo (temos mais o que fazer), ao menos alguém para sacaneá-los impiedosamente. Como é sabido, uma das principais características dos politicamente corretos é efetuarem “conquistas” que não conquistam porra nenhuma e “vítórias” que não mudam porra nenhuma, mas que aparecem na mídia, não incomodam ninguém e não dão despesas para o governo, funcionando assim como instrumentos perfeitos para politicagem e promoção pessoal. No caso, eles já “conquistaram” a implementação do “Dia do Saci” nas cidades de São Luiz de Paraitinga e São Paulo, tentam implantá-lo nas cidades de Juiz de Fora e Curitiba, e estão passando um abaixo-assinado por aí para ser encaminhado ao Ministro da Cultura para que se crie o “Dia Nacional do Saci e Seus Amigos”. Eu, particularmente, só assino isso se o Gilberto Gil se propuser a cortar fora a própria perna direita em homenagem à data, e saia pulando por aí com um cachimbo e gorro vermelho. Afinal, se o Roberto Carlos pode fazer shows com uma perna só, acho que ele também pode.

Mais interessante foi a festa que eles escolheram como maior alvo de seus ataques: o Halloween. Eles se propõem a combater a “macaqueação do Hallowen – O Dia das Bruxas americano”, propondo o “Dia Nacional do Saci e Seus Amigos” ou “Raloim”, aliás, na mesma data, em substituição e afronta à festa de “influência americana”. Para isso, propõem que as pessoas abandonem ou adaptem as fantasias e costumes tradicionais de Halloween para elementos da cultura nacional. Eles simbolizam isso com a uma proposta de troca do Jack-O’Lantern ( a abóbora com cara esculpida e uma vela dentro ) por uma Abóbora recheada de carne seca. Bem, pelo menos é rango, né? Além disso, acho que deve ser bem fácil trocar a fantasia de bruxa, feiticeiro, fantasma ou elfo por uma de Saci (que não tem uma perna), de Boitatá (uma serpente de fogo) ou de Mula sem Cabeça (nem precisa falar nada). Para tanto, aguardem a próxima série de posts, que trará o “Guia Buldozer de Fantasias Politicamente Corretas para o Dia das Bruxas, segundo os preceitos da Sosaci”.

Ainda em seu “manifesto”, eles conclamam um “um amplo movimento de resistência cultural”, sem proporem nenhuma medida efetiva para isso, e dizem que não são xenófobos. Imagina se fossem. Por fim, queria que não ficasse uma imagem de que sou algum tipo de reaça fazendo um texto para detonar uma organização “em prol da cultura brasileira”. Só acho que esse negócio de “Dia do Saci” não vai botar comida na mesa dos ceramistas, poetas de cordel e violeiros que ralam para sobreviver aí pelo país. E também não acho que a saída para a defesa e sobrevivência da cultura brasileira no século XXI seja ficar fazendo curta de saci e boitatá ad infinitum, como anda muito em voga entre os pseudo-intelectuais de plantão, em especial aqueles que liberam verba para projetos no MEC.